A vasta e rebelde barba branca e a voz cavernosa de Jon “Maddog” Hall dá pinta de profeta. O cargo reforça: “diretor de evangelismo do Linux”. Sua função é divulgar o Linux e arrebanhar gente para ajudar a evoluir o software. Jon esteve no Brasil para o 6º Fórum Mundial do Software Livre, que aconteceu em Porto Alegre [RS]. De certa forma, ele representa a antítese de Bill Gates, algo muito sedutor para uma geração desprovida de bandeiras ideológicas.
Maddog simboliza a quebra de patentes, a rebeldia e anarquia disponível dentro de um micro. “Não existe a corporação Linux. Não há ações da Linux. A Linux não quer dinheiro”, insiste Maddog à Trip.
Por que Maddog?
Quando eu tinha 27 anos eu não tinha muito controle, daí o “cachorro louco”. No final eu me dei conta de que a única coisa que eu perdi com isso foi a mim mesmo. Hoje o temperamento e a raiva ainda estão lá, mas eu aprendi a guardar isso dentro de mim.
Então por que você continua usando o nome?
Porque, um, ele me lembra de não perder o meu temperamento todo o tempo. Dois, é muito mais fácil de se lembrar de “Maddog” do que de um nome comum como “Jon”. É mais ou menos assim com a minha barba: se eu a aparasse ou cortasse o meu cabelo, provavelmente menos pessoas iriam se lembrar de mim.
Você é praticamente um popstar da comunidade Linux.
Eu sei, e eu odeio isso. Eu apareço muito em público porque… isso faz as pessoas se sentirem bem. E eu me sentiria um canalha se me recusasse a lhes dar atenção. Muitas vezes eu autografo qualquer coisa que enfiem na minha frente, mesmo que isso tome meu tempo.
Então vamos ao início. Como que vocês começou com os softwares livres?
Foi em 1969, quando eu era um estudante na universidade. Eu não tinha dinheiro pra comprar software, e não havia lugares na esquina onde se pudesse comprar um programa por 30 ou 40 dólares. Se você quisesse um compilador, custaria US$ 100 mil, e isso num tempo em que meus pais compraram uma casa por US$ 30 mil. Era muito dinheiro.
Mas como colocou a mão na massa?
Havia uma organização chamada Digital Equipment Corporation Users Society (DECUS). Seus integrantes escreviam softwares para solucionar os seus próprios problemas. Depois diziam: “Porque não contribuir pra formação de uma biblioteca para que outras pessoas possam usar os programas? Talvez as pessoas até me ajudem a melhorar o programa. Ou talvez eu acabe ficando amigo dessas pessoas e alguém me pague uma cerveja. Melhor: depois de um tempo posso até me conseguir um emprego porque as pessoas gostam dos softwares que eu faço”. Então eu me acostumei com esse conceito de software livre mesmo que a gente não o chamasse assim na época.
No que os programas da época eram diferentes dos de hoje?
Nos anos 70, os softwares geralmente vinham com o código-fonte. Quando as pessoas compravam um programa, eram donas dele, pertencia a elas. Então, se quisessem fazer dez cópias e colocar em dez computadores, poderiam. Não havia um custo por computador, e muito disso era porque, se você tivesse recursos pra pagar um computador, provavelmente você seria muito sortudo. Computadores eram muito caros.
Não havia licença por uso?
Os problemas de licença eram praticamente inexistentes. De fato, quando George Amdahl construiu o primeiro computador Amdahl, que era uma cópia exata de um mainframe (computadores poderosos, que poderiam ter o tamanho de uma sala) da IBM, era possível pegar o sistema operacional da IBM e colocá-lo no Amdahl porque não havia licença que dissesse o contrário. É claro que a IBM não gostou nem um pouco disso, mas não tinha nenhum recurso para reclamar.
Quando isso começou a mudar?
Nos anos 80, quando os computadores pessoais começaram a ser vendidos. A mentalidade mudou. Em vez de escrever um software para uma tarefa ou consumidor específico, as pessoas começaram a produzi-los de forma industrial e genérica. Isso causou uma queda nos preços. Em vez de cobrar US$ 100 mil por um compilador, seria possível vender mil cópias por mil dólares cada. Você faz um milhão de dólares, paga os seus engenheiros e todo mundo fica feliz.
E depois?
Ao longo dos anos o número de clientes ficou cada vez maior à medida que o preço dos computadores começou a cair. De repente, não havia mais mil clientes, mas havia um milhão de clientes, ou, no caso de hoje, 500 milhões de clientes. E aí foi necessário contratar mais pessoal para serviços de suporte etc. As coisas foram ficando mais caras e a indústria foi se formando.
E a comunidade Linux surge em contraste a isso?
Parte do que eu estava falando é a essência da comunidade Linux. Concorrência é bom. Abertura é bom. Sem padrões fechados, sem padrões que são implementados usando patentes de software para protegê-los. O Linux veio para manter a concorrência viva.
Como você vê a comunidade do software livre no Brasil?
Estou muito feliz com os rumos que o Brasil tem tomado. Esse é o sexto Fórum Internacional do Software Livre [venho aqui desde o segundo] e tenho visto uma progressão ao longo dos anos. Mais e mais pessoas entendendo o software livre, mais e mais envolvimento do governo.
Por que isso seria bom para o país?
O software livre pode fazer governos e pessoas economizarem milhares de dólares em programas. E quando quiserem fazer um upgrade deles, deixá-los atualizados, ter mais funcionalidades, não precisarão pagar pelo software. Com software proprietário, mesmo que inicialmente os usuários o consigam de graça ou a um baixo custo, ao longo do tempo eles vão ter que pagar.
Acredita que o movimento do software livre seja uma volta às origens da indústria de programas de computador?
Ele começou assim. E também com uma mentalidade de “nós queremos programar melhor, e nós sabemos que podemos”. Mas depois outras pessoas começaram a perceber que sim, o código era melhor, e começaram a dar suporte a isso.
E acabam explorando aqueles que trabalham de graça, por um ideologia.
Essas companhias gastariam 200, 300 milhões de dólares por ano para manter o seu próprio sistema operacional. E na Internet elas têm uma comunidade de pessoas que estão dispostas a fazer isso de graça. Assim, elas talvez contribuam com, digamos, 50 milhões de dólares por ano e economizem algo entre 250 milhões e 350 milhões de dólares. E obtenham sistemas operacionais com qualidade equivalente a que os seus engenheiros estavam produzindo.
Existe diferença entre o movimento do software livre no Brasil e nos Estados Unidos?
Com certeza. No Brasil eu vejo um governo trabalhando com o setor privado e vejo um respeito mútuo entre todos esses grupos. Nos EUA, muitos que estão no, digamos, mundo comercial, não dão o respeito que muitos dos programadores da área do software livre merecem. Por alguma razão, existe uma atitude de que o programador profissional é melhor que o programador amador. O que é uma opinião infundada.
Na América do Sul, o software livre virou bandeira da esquerda. Existe mais politização aqui do que no resto do mundo?
Não acho que seja uma questão de esquerda ou direita, ou liberal ou conservador. Acho que a questão é: como que as pessoas podem ter programas melhores, ganhar dinheiro, ou economizar dinheiro.
Você colocou o Brasil na vanguarda da implementação do software livre. Que outros países também estão adiantados nessa questão?
A Alemanha sempre foi muito forte com o Linux e com software de código aberto. A China, apesar de ter muita pirataria de produtos da Microsoft, está caminhando para substituí-la pelo software livre. O Canadá tem o Linux Professional Institute, e eles estão fazendo um bom trabalho em certificação. A África do Sul recentemente se mobilizou e começou a tentar implementar bastante coisa com código livre e aberto.
O que tem impedido as empresas de lançar os seus programas com código livre e aberto?
Empresas como a Microsoft trabalham com uma margem de lucro de, acredito, algo em torno de 80%. Se uma companhia de automóveis tivesse um lucro desses, o CEO da empresa seria consagrado Deus. É uma margem enorme fora da realidade. E as empresas não querem perder isso.
Mas hoje em dia as empresas têm escolha?
Existem muitas empresas, particularmente algo como a Microsoft, que estão com o coração na mão. Irão reduzir os seus preços e assim se tornar competitivas com esse novo conceito chamado software de código livre e aberto, ou elas irão manter os seus preços e dizer “bem, nós vamos simplesmente levar as coisas assim”.
Então como que o software livre e aberto se torna algo comercialmente viável?
Eu não sei se o open source algum dia será comercialmente viável para essas empresas, que têm que pagar seus engenheiros. Teria de acontecer mais ou menos o que aconteceu com a Netscape: “Ok, aqui está todo o nosso código-fonte. Ajude-nos a mantê-lo”. A comunidade open source olhou pra aquilo e disse “isso não é bom, parece uma lata de spaghetti”. Então começou o seu próprio projeto chamado Mozilla, que recentemente se tornou o bem-sucedido Firefox.
O que acha do uso dos princípios do open source na produção cultural?
Eu acho que o Creative Commons, particularmente, é um projeto brilhante, e o apoio completamente. Acredito que é muito legal poder dizer que o copyright deve ser protegido porque é um direito do autor. Mas a licença é muito complexa, é muito difícil para as pessoas descobrirem como abrir mão de alguns direitos e não de outros. Então o Creative Commons, acredito, é uma grande idéia, particularmente no lado cultural do mundo.
